sábado, 27 de dezembro de 2008

O caráter pelo corpo

Outro dia caí da cadeira. Sonhei que nosso corpo tinha o poder de denunciar nossos crimes. Por mais silêncio que se fizesse. Por mais chaves que guardassem o segredo ele era somatizado. Aparecia escrito na testa literalmente. Imagine uma sociedade onde o corpo é capaz de nos denunciar e nos punir pelas falhas de conduta. Um ladrão teria uma lista de doenças programadas pelo governo mundial, que seguiria o modelo da web, para impedir, denunciar e punir. E a polícia e o juiz, e o advogado... enfim como a justiça seria representada? Não seria. A justiça estaria na cabeça do ladrão, bem como na de qualquer cidadão e seria chamada de consciência. Sempre que que o corpo agisse pelo impulso imoral ou criminoso, haveria um dispositivo no cérebro, que inundaria o sangue com hormônios e outras substâncias capazes de colocar a pessoa num auto julgamento que seria detectado por esse governo, que apenas como observador veria a sentença que a própria pessoa iria somatizar. Pessoas saudáveis nessa sociedade fictícia seriam pessoas capazes de autocontrole. Quanto mais controle, mais saúde e anos de vida. Bom, o sonho já foi sucedido pela fantasia, melhor parar. Mas é verdade, a saúde do corpo depende de seu caráter. Paz na consciência por assim dizer somatizada é harmonia nos sistemas corporais. Uma pessoa perturbada pela própria conduta, é assim de corpo e mente. Quem sabe cuidar do corpo, sabe cuidar do próprio caráter. Porque a relação mais íntima é só. O seu caráter não está em outra pessoa, outro corpo. Só em você.

segunda-feira, 17 de novembro de 2008

"Até quando?"

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Escola e Violência

Precisamos ver claramente a questão da violência escolar. Mais do que a indiferença dos governantes, que em concordância com o Filósofo de São Paulo, creio que não querem ser cidadãos, penso que a escola em si não estimula a violência de outra forma senão sendo ela mesma uma violência contra os alunos. Ela foi arquitetada para ser uma prisão onde as celas estão veladas em livros, em conservadorismo e comportamentos utilitários de uma forma de governar.

quinta-feira, 30 de outubro de 2008

O Símbolo da Educação Física



Lembro-me de ter perguntado para uma professora o que representava o símbolo da Educação Física  quem o elegeu e como. A professora de ginástica se limitou a insinuar que ele era muito antigo, grego, simbolizava o  movimento. Não acredite que o conhecimento está na universidade. Está nas pessoas agentes. Baseado no princípio da auto-educação, que descarta todo professor como educador porque não passou por esse simples processo, fiz minha pesquisa inconformado com o simplismo da resposta:

 O Discóbolo de Mirón foi escolhido como símbolo da Educação Física por representar a força e o dinamismo característicos dessa profissão. Aprovada em reunião plenária do Conselho Federal de Educação Física, tal escolha está documentada no texto abaixo:

RESOLUÇÃO CONFEF nº 49/2002

Dispõe sobre o símbolo, a cor e o anel de grau da Profissão de Educação Física.

Art. 1º - Ficam aprovados o símbolo, a cor e o anel de grau da Profissão de Educação Física, como segue:

§1º - SÍMBOLO: Discóbolo - por estar baseado nos movimentos do corpo humano em ação. O Discóbolo de Mirón é a mais célebre das estátuas atléticas. Segundo pesquisa: "...o corpo revela um cuidadoso estudo de todos os movimentos musculares, tendões e ossos que fazem parte da ação; as pernas, os braços e o tronco inclinam-se para imprimir maior impulso ao golpe; o rosto não parece contorcido pelo esforço, mas calmo e confiante na vitória"(...).


Peculiaridades desta célebre escultura

Significado do Termo: Atleta que arressava o disco nos jogos esportivos da Grécia antiga (HOUAISS, 2001). Estátua grega de bronze esculpida por Miron no século V a. C. de um atleta pronto para lançar o disco. É uma das mais célebres obras clássicas e sobrevive apenas em algumas réplicas Romanas. Foi exaustivamente copiado no Neoclassicismo (HOUAISS, 2001). Encontra-se atualmente no Museo Nazionale Romano em Roma, Itália.

Conceito: É a representação ideal de um atleta. Capta a natureza do movimento como se tratasse de uma fotografia instantânea. A detalhada descrição da musculatura revela grande conhecimento da anatomia masculina. O rosto é inexpressivo e ideal, sem revelar o esforço do lançamento.

Autor: Mirón (490-430 a.C.), escultor grego nacido em Eleutera. Trabalhou, principalmente, com o bronze.

Periodo-estilo: Periodo clássico da arte grega estilo realístico.

Contexto: Viveu no período de máximo esplendor de Atenas, em que a cidade encabeçava a aliança militar da liga de Delos para por fim a ameaça oriental Persa. Trabalhou na decoração da Acrópolis. O estado Ateniense gastrava muito dinheiro em obras de arte, fato que conferia muito prestígio a cidade. Estas esculturas eram feitas para homenagear os vencedores dos jogos atléticos, mas não possuiam semelhança com o homenageado, pois os artístas deste período tratavam de retratar a beleza ideal em suas obras.

O arremesso do disco
Criada na Grécia mitológica, é considerada a mais antiga prova de arremesso do atletismo. Supõem-se que os primeiros discos eram de pedra e não tinham o formato atual, ou seja, os implementos vêm sofrendo aperfeiçoamentos através dos tempos até alcançarem o formato circular de hoje. Esse esporte tornou-se bastante popular na Grécia antiga (inclusive levando vários artistas daquela época a estudá-lo), presumi-se devido a variedade de posições que o corpo adotava durante o arremesso. Foram criadas várias obras de arte fundamentais, entre as quais: os discóbolos de Alcamenes e Miron, além de outros anônimos (FERNANDES, 1978, p. 77).




terça-feira, 28 de outubro de 2008

Pedagogia da performance

Qual a relação entre imitação e aprendizagem? Somos imitadores desde a primeira infância. Imita-se para se aprender. E ao contrário do que possa parecer a imitação é um preparatório para emancipações e criatividade. Ela fornece elementos de exploração que devidamente trabalhados abrem o caminho para a diversidade. O que difere o conceito entre adultos e crianças é que o adulto já adquiriu sua bagagem cultural e pode pensar , julgar sobre a causa e a finalidade do que imita. A criança em sua construção de mundo por sua vez tem pela falta de um um julgamento mais rigoroso a possibilidade de uma experimentação maior sobre o que imita. É portanto a criança mais livre no sentido de significar seu movimento a partir de sua vivência. Ela aprende, o adulto re-aprende e por vezes julga-se sabedor do que sequer aprendeu de fato. Isso mina a experiência. Nosso corpo traz em cada célula uma linha de nossa história. O ser humano é performático. Sua essência e sua ação ora se unem, ora se revezam na construção dos significados. Tudo passa a existir se tudo significar. Assim a pedagogia , bem como a pedagogia do movimento são artes performáticas. E todo processo ensino-aprendizagem segue nossa natureza de imitadores. Basta ver  que uma aula é uma prática de imitação, nós copiamos as ações de nossos professores. Estes formados e refinados , já com seus movimentos significados ou com resignificações. Ser educador contudo, não é inspirar imitação. É propor através da performance uma atitude questionadora e de valoração. Estender a imitação, criar fase, vínculos ou mesmo teorizações acerca do prolongamento de repetições copiativas é escravizador e várias ideologias se usam disso para cercar seus membros ou  recrutá-los. Haja visto os comerciais televisivos e a publicidade. Não há como ser um expert em uma área sem performance contextual ou intertextual até. Isso faz repensar a relação entre a beleza e a verdade. O belo nem sempre verdadeiro, é sempre agradável. Tive uma colega de classe linda. Coxas torneadas, bubum durinho, seios empinados, curvas e curvas para as  derrapagens masculinas. Mas em ação... que negação. A moça que parecia estar em plena forma, carecia de elasticidade, flexibilidade, força, ritmo... atributos indispensáveis às donzelas guerreiras da E. Física. Um explo apenas da complexa relação entre beleza e verdade. Aliás ela começou a dar aulas em academia por causa da beleza. Mesmo sem nenhuma formação ou competência. Essa contraria a pedagogia da performance e instaura a pedagogia da aparência. Ela ensina porque é bela. Em se tratando de performance na educação isso não parece preocupação da maioria dos professores. Há discursos dominantes inclusive sobre a importância da performance na didática. É engraçado uma professora de ginástica geral e olímpica, não ter vivência e proficiência na prática embora tenha formação e didática( saber ensinar o exercício é o mais importante). Muito engraçado é ela ser espelho dessa aluna por explo: estar aparentemente em forma e sofrer muito dando aulas. Isso é observável porque imitar alguém não é segui-lo cegamente. É notar nossas limitações pela limitação do outro. E nossas capacidades pelas capacidades do outro. A relação eu-outro mediará a introspecção, a auto-descoberta e conhecimento de nossos próprios limites. Até onde estamos imitando? Até onde estamos aprendendo? A nossa performance é nossa ação, atuação, interação. O que fazemos nos ensina, ensina os outros e, diz quem somos.

segunda-feira, 20 de outubro de 2008

Quem é quem?


A palavra marionete vem de marion, diminuitivo de marie, pequena figura de madeira ou papelão. O teatro de marionetes está presente em muitas culturas antigas de modo que não é possível precisar o seu começo enquanto atividade recreativa. No nordeste brasileiro ele se popularizou e se adaptou às comemorações regionais através dos artistas itinerantes, os mambembes recebendo nessa roupagem o nome de mamulengo.
Segundo a Wikipédia : "Boneco de fio" ou "marioneta" (em Portugal), "marionete" ou "fantoche" (no Brasil), origina-se do termo marionette [do francês]. Boneco (pessoa, animal ou objeto animado) movido por meio de cordéis manipulados por pessoa oculta atrás de uma tela, em um palco em miniatura. Constitui-se numa forma de entretenimento para adultos e crianças.
Esse modo de encenar a realidade e a fantasia empresta seus elementos constituintes para uma pequena reflexão aqui baseada numa das capas da obra de João Paulo Subirá Medina ( A Educação Física Cuida do Corpo e " Mente "):
Bonecos animados por alguém com uma intenção. A de contar através deles uma história.
Há a cenografia que é o espaço onde vivemos. Há os fios que nos prendem: nossas relações. Os bonecos: nós. A história: a que contamos. Cada um tem sua atuação garantida nesse teatro. O que ocorre é que o teatro é uma representação que se não recreativa é alienante. Nós temos uma educação que não nos ensinou a sermos platéia. Não temos o hábito da  observação, preferimos a ação. Submersos na ação ainda que irrefletidamente. Tomamos parte num teatro onde não somos sequer atores e sim figuras que emprestam suas existências aos verdadeiros atores. Não escrevemos nossa história embora contada através de nós é dada como posse. Somos por uns fios deterministas presos e manipulados pelos inventores da verdade. De um modo muito cuidadoso é nos dada uma certa identidade imutável (assim parece) por ser comum. A aceitação nos torna próximos sob o rótulo de comunidade, várias marionetes interagem reforçando a teia do controle psicossocial. Também a platéia , por ser tomada de uma consciência crítica não escapa dos efeitos dessa manipulação de bonecos. Ela é afetada para e por assistir. Assim como os atores interpretantes também são afetados para representar. Todos representam o tempo todo e seus seres fragmentados em mentes, corpos e disfunções são passatempos dos donos do poder. Esses não manipulam os bonecos e nem os assistem. Apenas colhem os efeitos de sua criação condicionadora. Estão nas crenças religiosas, sistemas políticos e ideologias, todos embutidos com o consumismo que tem dado o ilusório sentido da vida ao homem. Nesse  teatro as coisas só passam a fazer sentido quando decidimos por nós mesmos como escreveremos nossa história. E começamos perguntando: _Quem sou eu? Existe nós? Quem é quem? 

terça-feira, 26 de agosto de 2008

Professora não, tia sim? Nem tia nem ninguém

Para quem ousa ensinar: cuidado e não sofra se descobrir que você não sabe o que ensina. Não sofra se ver que ninguém aprende. E esse ninguém pode ser um aluno. Um único aluno que carrega a sua desconsideração em ser tratado como ninguém.
Professores que não se educam, que relaxam na autocrítica esquecem de praticar um dos mais simples e edificantes ensinamentos freireano: ninguém educa ninguém, todos aprendem em comunhão.
Se todos aprendem em comum união todos somos interventores sociais. Não é a professora, nem o aluno, nem ninguém no sentido de nenhuma pessoa isoladamente. Somos todos aprendentes e ensinantes em tempo integral. Ninguém é o esquecido, o oprimido e desesperançado que se vê só. E só percebe a impossibilidade do diálogo. Todos somos solidários, livres e esperançosos. Se há uma Educação Libertadora, ela não liberta apenas um. Ela liberta a todos.

Ensinar e aprender: um diálogo

O diálogo é a estrada para a conscientização. O elo fundamentante da educação entre pais, professores e alunos. Quando há desinteresse de uma das partes o elo se rompe. Falta o diálogo, falta a educação pois falta a presença. Presença participativa na formação escolar. Pais e professores negligentes = filhos e alunos negligentes. A escola não é o prédio onde se ensina e se aprende. A escola é a possibilidade do diálogo. Sem diálogo o prédio é um vazio monólogo onde alguém pensa: eu ensino. E outro alguém pensa: eu aprendo.

O professor e o Educador

Quem trabalha com educação, gosta de ser reconhecido como educador. Recentemente muitos professores haviam sumido porque migraram de professores para educadores. Com a baixa intelectual, moral e consequentemente financeira, ser professor é professar a inutilidade. O professor é uma caricatura grotesca e mal humorada do ensinante perdido no caos escolar. Eu mesmo levantei a bandeira em prol dos professores , a profissão do desuso. Depois de certas vivências na escola e com professores percebo que eles não são nem professores, nem educadores. Perderam-se. Parecem crianças brincando de ensinar com outras crianças que não brincam de aprender. Assim percebido é notável constatar via diálogo ou pela falta dele, que os professores esqueceram-se de se educar. É um perigo para a sociedade. Insatisfaz-me e me inquieta um professor analfabeto, que não lê e não interpreta a sociedade em que vive. é um perigo o professor que trabalho com o ser humano fora das suas realidades. Que cidadão estamos tentando capacitar dentro de uma escola que é feita só de paredes de concreto? Cadê o material humano para a construção de uma sociedade mais justa? Cadê a abordagem cidadã? Esquecem-se que a finalidade da Educação é formar a autonomia intelectual do cidadão para que este tenha o instrumental e as competências para intervir sobre a realidade. Nenhuma mudança social é possível sem Educação. Nenhuma mudança pessoal é possível sem Educação. Então , professores sejam educados e serão educadores. Não é preciso abrir mão da profissão, do ideal, da realidade. No fundo no fundo todos os educadores são professores e todos os professores são educadores. Desde que queiram.

sábado, 16 de agosto de 2008

Piaget em movimento!

Epistemologia Genética é um corpo de teorias de Jean Piaget. Com suas pesquisas esse arrojado biólogo sem dúvida revolucionou o campo da pedagogia ao aliar a psicologia, a filosofia e a biologia para tentar responder a pergunta: como se constrói o conhecimento no ser humano?

Como? Quem quer saber ou ousar mais na resposta não fica indiferente a Piaget.

sexta-feira, 15 de agosto de 2008

Mercado de trabalho

Oferta e procura de trabalho: mercado de trabalho. Alguns camaradas da Educação Física se queixam do mercado. Está difícil emprego na área. A mercê das pós, extensões, especializações, mestrados o povo se ressente da crise e do capitalismo que nos torna ávidos circulantes por entre novidades do consumo. Apostando na boa formação e informação esquecem de suas humanidades e habilidades mais básicas como a comunicação. Fora o número crescente de estudantes e profissionais poucos estão preocupados com suas competências de fato. Vê-se claramente o quão são péssimos aprendentes. E fora da educação o senso é que há muito profissional para pouco trabalho. Esboçam alguns estudos marketeadores que o mercado é amplo e pouco aproveitado. Teoria e prática. Trabalho é prática. Quem trabalha bem chama boas oportunidades. Em minhas atividades acadêmicas e culturais durante seis meses, empenhei-me na participação dando o sangue e a pele, minhas mãos sangraram literalmente. Muita vontade em ação. Resultado? Embora estivesse no primeiro ano de faculdade, recebi quatro propostas de emprego sendo duas como estagiário e em projetos de órgãos públicos. Eu me empenhei no trabalho que me propus e as pessoas que vieram a me conhecer me perguntavam: você já trabalha na área? Quando eu revelava minha idade no curso via a decepção deles. Era engraçado. A escola em que estagiei foi me buscar posto que embora eu tivesse me inscrito, trabalhava voluntariamente com ginástica laboral numa empresa. Professor de Educação Física não pode temer nem contato nem exposição. E olha que sou uma caricatura em termos de beleza e performance. O que acontece então? Muita reclamação. Trabalho chama trabalho. Parando de reclamar e começando a trabalhar são nossos melhores votos de sucesso que podemos fazer a nós mesmos.

segunda-feira, 11 de agosto de 2008

Liderança sem líder

Um time precisa de um capitão em campo. E o capitão mais o time de um treinador técnico. A sala de aula precisa de um professor. E o professor mais a sala de aula de um orientador pedagógico. Ou seja os grupos precisam de lideranças. Liderança é arte de influenciar pessoas, tornando-as voluntariamente cooperativas! Óbvio que esse conceito cunhado por mim é deveras simplista para um assunto tão amplo e estudado atualmente. Ele servirá apenas de base para uma construção que se inicia: a liderança sem líder. Penso que é impossível uma liderança sem líder. Mas imagino uma tendo como modelo o corpo humano. Até porque a primeira PESSOA liderada por um bom líder é ele mesmo! Você se lidera? Tenho exemplos marcantes em minha vida de pessoas que ocupam cargos de liderança mas não se lideram. Apenas ganham mais para manter subordinados dentro de uma concepção de rendimento. Essas pessoas lideram por coação: obrigam, amedrontam, mentem, ameaçam para se manterem. São o caos emocional delas mesmas. Gritam, usam de palavreado inadequado, e tem atitudes anti-éticas. São negligentes, imprudentes e imperitas. São geralmente autocratas. O oposto necessário é o líder democrático: que chama a todos na participação, cuja decisão é a decisão de todos e é capaz de formar novos líderes. O bom líder sabe a diferença entre motivar e desmotivar, tem respeito, humildade e é aprendiz sempre. Os maus líderes fingem ignorância, são arrogantes, desrespeitosos.
No corpo quem lidera?
Qual o órgão mais importante do corpo humano? Quem escolhe um , que pena, nega o restante. O restante que não é resto, é o todo. Temos a impressão de que o mais importante, lidera. E de que os outros obedecem seja o líder bom ou mau. O corpo é um explo de liderança sem líder. Não é o cérebro, nem o coração, nem qualquer outro músculo que lidera corpo. O corpo formado é capaz de autonomia. Uma integração de sistemas funcionando harmoniosamente dá existência ao corpo. O corpo juntamente com fatores internos e externos alça relações entre necessidades, liberdades, dependências e independências. Isso é tão complicado quando não temos um instrumental ou um mediador capaz, que sequer notamos a confusão que fazemos entre pensar e imaginar, mover-nos e sermos movidos. Por ser uma liderança sem líder o corpo tem causado muitas doenças. O pior que como causa de doença ninguém o vê como doente. Como é possível liderar sem sem ser líder? Uma percepção mais acurada da linguagem e sua relação com o movimento humano coloca o corpo no devido lugar: corpo humano. Dotado dessa humanidade que em nós se manifesta como consciência do eu através do outro a possibilidade de todo movimento se insere num contexto de sociabilização(integração de sistemas autônomos). É isso que ao meu olhar investigativo se mostra como o elo entre liderança e líder: o sem. Sem liderança e sem líder: caos. Sem liderança, com líder: caos. Com liderança, com líder: ordem. Com liderança sem líder: ordem natural.
O corpo na ordem natural
Todos os sistemas integrados do corpo se mantém funcionando graças à integração. Já imaginou o sistema respiratório sem o sistema nervoso? Como alguém viveria sem a convergência entre nervos, músculos, sangue, ossos numa ordem natural? Observemos como todas as partes são cooperativas e como a sociedade aprenderia mais se tivesse um olhar menos tendencioso para o corpo. No decorrer da história da Educação Física houve primazia pela classificação do que era mental e o que era corporal. Estando a pouco tempo o corpo ( dicotomizado e sem a mente) como objeto de estudo, tinham os movimentos não só objetivos higienistas, mas também de reguladores da mente e por tabela até da moral. A repetição desastrosa de Juvenal : Mente sã em corpo são, não só colocou o corpo como liderado pela mente, como fez da mente uma líder autocrática. A função do corpo era a de sustentar a mente. A atividade física era vista como trabalho corporal e por isto inferior ao trabalho intelectual.O corpo como servo da mente. Acaso as doenças do corpo também não são ditas mentais? As culturas onde o intelectual tem uma relação pobre, enfraquecida ou inexistente com o corporal na atualidade manifestam desajustes comprometedores da formação humana. Mental e corporal são únicos até agora. A não ser culturalmente nenhuma ciência foi capaz de separar a consciência do corpo e provar a diferenciação.
Liderança sem líder
Seleção. Seleção natural. Quando além do biologismo somos transportados para outras facetas da existência, não há como negar que somos seletistas. E que nosso poder escolha embora limitado, mas pessoal e intransferível angústia e prazer, é uma ordenação em que podemos optar por seguir um líder ou uma liderança. Dentro de nós sabemos o que é que o líder e sua liderança. Porque essa história começa em nós. Tenho pensado numa liderança sem líder. No desconhecimento de uma pessoa, mas no reconhecimento de todos.
Quem somos nós? Quem nos lidera?

terça-feira, 24 de junho de 2008

O que mais se aprende

Hoje perguntei ao meu filho o que mais se aprende na escola. Ele sem titubear respondeu que era malícia. Não é por acaso que os políticos ignoram a escola. Ela é para eles, uma fábrica de concorrentes...

quarta-feira, 18 de junho de 2008

O sino e a sirene

Desde criança eu achava engraçado tocar o sino na escola. Depois o sinal evoluiu para a sirene.Olhando mais de perto é possível estabelecer uma relação entre o início, o intervalo e o fim das aulas. A troca de matérias e professores anunciada para toda a escola simples e eficazmente. Todavia é um susto ver que ninguém associa o som ao significado do som e como ele reverbera em nosso comportamento. Paradoxalmente a escola tenta disciplinar os pequeninos sem saber a diferença entre disciplina e controle. A bem da verdade a escola tenta controlá-los, sendo ela mesma símbolo de descontrole, carência, dependência. Não vou culpar ninguém. Vou a culpar a todos nós. O sino representa o dogmatismo, a punição. A sirene , vigilância, imposição de ordem. Ambas vozes do autoritarismo. Está na hora de substituí-los quem sabe...por música clássica, um rock, um pop ou algo que faça parte da realidade dos educandos e que não os lembre fuga de polícia, ambulância, bombeiro...tudo tão ligado a tragédias. Nem os lembre de igreja, pecado, culpa, punição. A escola precisa assumir o seu tempo. A escola não precisa jogar no subconsciente do educando com seus sinais que é um lugar de reclusão, de ordem, de controle. Nem precisa sê-lo. Não por acaso a maioria de nós encara o estudo como algo chato e se rebelar é ir contra o ensino, contra a escola, contra os professores. Nem sino, nem sirene para todo mundo. Inovação. Liberdade.

sexta-feira, 13 de junho de 2008

Exercitar o potencial

Hoje escrevo para estarmos próximos eu e a escola. Escrevo porque creio que todo potencial pode e deve ser exercitado. Escrevo para me educar. Vou por este jardim regar estas plantas que vejo nas sementes que joguei por terra. Potencial, potência... hoje estou por um filosofar aristotélico. Quero enxergar a árvore na semente. O potencial não é um devir, algo que está guardado esperando o momento o certo, as condições adequadas. Não é um ser imanifesto germinante no vazio do desconhecimento esperando o sopro da oportunidade ou a conjunção dos favorecimentos para um despertar. O potencial a potência não é uma possibilidade aberta ou fechada. O potencial é um caminho do ser ao ser. Está na busca. E como diz bem dito o ditado: " só buscamos o que já encontramos antes". Esse é o exercício: ser o que se é. Não virtualmente apenas com projeções, mas realisticamente vivendo o presente. Dando a cara para bater, como disse certa vez o prof. Wilson. Sem medo de ser o que é. Assumir-se como gente agente. Esse é o potencial, uma derivação da potência, do poder. Um prenúncio da potência. O poder pessoal é sem dúvida o reflexo desse potencial em exercício. Posso vislumbrar os encantadores desdobramentos: a semente que guarda e libera a árvore, a árvore que guarda e libera as flores, e depois os frutos, que dentro de suas polpas guardam e liberam novíssimas sementes. Hoje escrevo porque não posso estudar como eu gostaria. Mas estou exercitando meu potencial e mantendo a E. Física na minha vida.

O brilho das idéias

A falta de imaginação nos deixa no escuro. A falta de saídas para uma situação-problema nos deixa inertes. Quem não se lembraria da ilustração de uma lâmpada acesa como símbolo de uma nova idéia? Uma Lâmpada para iluminar o quê? A idéia é a saída! E na maioria das vezes ela vem subitamente como a luz de uma Lâmpada que é acesa. Mas para termos essa luz temos que percorrer um caminho preparatório. Esse preparatório serve para mostrar que as idéias não surgem do nada, assim como a luz elétrica não brota do nada. Para acender uma lâmpada, a história começa no uso dos recursos naturais. O que a natureza nos deu: a necessidade do movimento para viver. Esse é o rio cujo potencial represaremos com inteligência para acionar as turbinas que transformarão esse tipo de energia primordial na energia necessária à nossa empreitada. Depois de gerada ela precisa ser distribuída para os diversos segmentos onde cumprirá a função de comunicadora, de ativadora, conservadora e renovadora de outras energias. Energia gera energia e no meio dessa história está a lâmpada, que transformará essa energia em luz. Foi preciso muito conhecimento e trabalho para essa explosão luminosa! É crucial verificarmos esse caminho e o que temos feito com essa energia e essa luz. O que temos feito com nossas idéias? A maioria delas certamente morre sufocada por falta de espaço em nossos movimentos cotidianos. e quando são compartilhadas, muitas vezes encontram opositores que tentam inutilizá-las. A idéia em si é um relampejo de autenticidade. A mais absurda e reprimida geralmente tem muito de nossa identidade e de nossos ideais. Ideais? Sim idéias e ideais são gemelares. Nossas idéias são profundamente, uterinamente ligadas aos nossos ideais. Se estamos ruins de idéias, não estaremos bem de ideais. Nota-se que as gentes, nós, quando temos carência de uma, já nos falta a outra. Tantas profissões trabalham com criatividade, mas o mundo parece pobre de idéias. O mundo é o resultado da canalização das idéias para diversos fins, como os fios que a distribuem em diversos segmentos, sendo que o segmento mestre é o de dar idéias para que não se tenham idéias. Idéias bobas, mirabolantes, extravagantes, fora dos padrões de agradabilidade, idéias inteligentes, idéias são perigosas para organizações do poder, da hierarquia, e da política de subjugação. Cada vez mais as pessoas notam o esforço que precede uma boa idéia. Cada vez mais elas preferem ir para uma prateleira de idéias e colocá-las no seu carrinho se supermercado. Não é preciso pensar muito quando tudo está pronto, embalado, etiquetado, esperando pelo consumidor. Alguém teve a idéia, alguém terá. não seremos nós , será alguém...um novo produto, uma melhoria, uma nova geração disto, um novo design para aquilo, e tudo parecerá muito útil e necessário, naturalmente. É como uma aula de ginástica que se repete por muitos anos, até que surge o movimento das franquias, os novos métodos misturando práticas diferentes, combinando práticas antigamente isoladas, e tudo disfarçado como novidade. mas quem ousa ira além dos paradigmas e ter de fato a transpiração necessária para uma nova idéia? Quem acreditou tanto em si ( si: idéias+ideais)? Temos trabalhado para termos boas idéias?Temos cuidado de nossa energia primordial? E já temos o conhecimento para transformá-la e distribui-la? Precisamos de arejamento. Na transpiração precisamos de consciência de nossa inspiração e expiração. Quando nos falta o fôlego e há dor e exigência é que o aprendizado da conjugação de esforço e respiração sincronizados farão a diferença. então de olhos bem abertos, ou com eles fechados veremos o brilho espetacular. O insight. O brilho das idéias.

segunda-feira, 2 de junho de 2008

Entre a tradição e a experiência pessoal

As artes marciais, os esportes de luta e combate são um legado. Nos dias de hoje há nessas artes e esportes um conflito visível que vai moldando uma nova prática. Uma nova identidade? Talvez uma renovação, uma atualização. Esse conflito é : inovação X tradição. Os reformadores têm o mesmo princípio que motivou os " fundadores ": a sobrevivência. A pergunta é a mesma: lutar para quê? Se antigamente para se proteger, proteger a família e o país, hoje a sobrevivência depende pouco de fatores bélicos e de habilidades nas artes guerreiras. Então há uma quebra de paradigmas. Os reformadores se matem na filosofia, mudando o externo, a forma. Dando mais vazão à experiência pessoal do que seguindo uma tradição. Entretanto um estudo mais apurado dessa relação no seio das artes tradicionais mostra que o fim é nada menos do que um devir que culmina na expressão de si mesmo. Ou seja na experiência pessoal. A tradição é um livro a ser lido, estudado, consultado para as inovações necessárias e inevitáveis pela mudança dos tempos. O que ocorre é o esquentamento acirrado de uma disputa para ver quem tem razão. Os tradicionalistas dizem que as artes marciais estão deixando de ser combativas e se tornando um balé, ou focando apenas em autodefesa, ou se tornado esportes cheios de regras, desvalorizando o legado. Os reformadores dizem que depois das armas de fogo e novas exigências das relações humanas, não há espaço para combates reais, lutas onde o corpo é sacrificado esteticamente em função de armas que o degeneraram e são inúteis no mundo de hoje, relêem o legado. De fato algumas das novas abordagens nasceram de rompimentos na estrutura familiar dessas práticas. O bom aluno se emancipa e quer fazer valer seu ponto de vista. Surgiram assim uma infinidade de escolas sendo que isso não é novidade. Ocorria há muito tempo. A repetição é uma marca do homem na história. Ela mostra como somos cíclicos e como não aprendemos corrigindo os erros do passado. Há nos reformadores a presença desse discurso de não repetir o passado. A tradição representa uma fé cega. Eles pontuam que suas abordagens surgiram da experimentação e da reflexão dentro de suas práticas tradicionais. Um ótimo explo é a reportagem exibida de ontem 01/06/2008 pelo programa Fantástico. A repórter e sua equipe fizeram uma matéria alertando sobre a explosão do Muay Thay entre crianças, incentivadas pelos pais. Entretanto a mesma reportagem foi motivada pelo crescimento do número de praticantes dessa modalidade na Europa. Muay Thay é um método tailândes de arte marcial caracterizado pela dureza de sua prática. Isso é tido aqui no ocidente como violência. Para uma cultura onde somos auto-indulgentes com o corpo tudo pode machucá-lo. O fato é que essa reportagem bipolarizada focou no aspecto da violência, que é o que mais vende notícia hoje. Descartaram o processo da tradição e da experiência pessoal. Desprezaram a cultura onde essa luta foi desenvolvida, a época e sua evolução. No oriente assim como no ocidente essas práticas de luta têm um caráter educativo. Elas fazem parte da Cultura Corporal de Movimento. São ferramentas. E podem ser mal utilizadas. Entre reformadores e tradicionalistas há uma convergência no reconhecimento dessas lutas como importantes na formação integral do ser humano. Elas estão recheadas de valores que são exercitados fisicamente na relação entre aluno-professor-classe-sociedade. A evolução é natural e não pode ser impedida. E esse conflito merece um novo olhar. Como em todo conflito há o potencial de transformação e ela virá do melhor jeito. Merece uma " e " em vez de " ou ". Inovação e tradição.

sábado, 31 de maio de 2008

Intervenção

Quanto mais parada a aula, mais chata. Pode ser uma teoria difícil mas se incitada pelo movimento torna-se interessante e inesquecível. As melhores coisas de nossas vidas aceleram nossos corações como uma rápida corrida que explode de repente sem a meta da chegada. E quando chegamos que alívio deliciosamente vital! Aprender pode ser assim, essa emoção vital integrada ao movimento. O movimento do corpo e da consciência são uma coisa só. Os padrões da postura e suas mudanças no tempo e no espaço mostram apaixonadamente que aprendizagem é movimento. Se não está havendo aprendizado, é a inércia. A aula chata é empre do professor chato e para ele com alunos chatos e deinteressados. Que chatice...
Hora de intervenção. Mova-se. Literalmente.
Se a tensão nos paralisa, o estresse nos enrijece os limites se encurtam, os problemas somatizam num sedentarismo de falta de opções. Ficamos sem ver e ver é o como percebemos. Parados assim vemos pouco ou nada. Movimento para expandir os horizontes! Sair do quadrado da carteira escolar e se arredondar numa caminhada , numa respiração mais profunda, numa risada, numa dinâmica com expressão corporal, numa expressão cultural corporificada.Ter prazer só custa ter a si mesmo. Um preço impagável por muitos posto que muitos prazeres oferecidos são um distanciamento do si mesmo. São prazeres que trazem a doença, a instabilidade das emoções, o vazio existencial quando passam a ser mais importantes que a própria pessoa. Esses prazeres viciantes e deseducadores entram pelas portas das escolas e se sentam nas carteiras escolares, na mesa do professor e impedem o aprendizado. O aprendizado que é a interação entre o objeto de estudo, o estudante, o mundo e o mediador ( professor). Estão num mundo onde não há esforço e o movimento é repetitivo e cansativo. Preferem descansar parados. Aprender pode ser prazeroso. Descanso em movimento. Em variar em vez de repetir a velha idéia do nada fazer. Esse descanso ativo é uma oportunidade de aprendizado pois é um convite às artes , à prática de esportes e de atividades físicas onde os conhecimentos multidisciplinares podem ser inter e transdisciplinados.
Os estudantes, principalmente os pequeninos são canais de energia ou tensão. Isso depende de seus ambientes e suas relações. Sentados são vistos iguais e com poucas chances de expressão. Conflituam muitas vezes para não perderem o senso de identidade que é a busca do ser pelo tornar-se. Suas bagunças, suas desatenções e agressões são tentativas de libertação dessa carteira, essa condição de imobilidade e exigência de inteligência. Aprender tem que ser interessante e incitado pelo movimento, pela saída do convencional seja ele o que for, aprendizado tem que ser mudança. Essa mudança tem o mediador que ensina sem ensinar nos termos de superioridade. Ele não ensina expondo o conhecimento na vitrine livresca. Ensinar não é levar o peixe, é compartilhar a pescaria. Ele intervém inspirando. Sendo admirado. Provocando. Hoje é essa a meditação : como intervir? Para quê? Para quem? Com quem? A motivação já tenho: tornar o aprendizado agradável, desafiante e visivelmente aproveitável. A vida escolar pode ser suada e suar é saudável. Estudar é um esforço salutar e não uma punição, perda de tempo, de espaço ou de movimento. É...estudar não é perda de movimento.

quarta-feira, 28 de maio de 2008

Educação: o corpo da autonomia!

O corpo da autonomia é o corpo interessado e crítico, reflexivo. Não é um corpo que se entrega sem questionar. Sem se valorizar, sem valoração jamais. Esse processo dinâmico que chamamos de Educação requer engajamento, compromisso com o ideal não de educar, mas de se educar e mostrar aos outros que só eles podem se educar. É dolorosa a percepção de que " depende de nós " é na verdade " depende de mim ". A aceitação da responsabilidade sobre si mesmo como agente é um grande passo. A partir dessas percepções preliminares nos tornamos capazes de compreender a mecânica das hierarquias sociais. Nós nos conhecemos e nos reconhecemos como sociedade. Aquele governo corrupto que criticamos sem envolvimento político é um reflexo de corrupções menores, particulares. Nossa crítica é parcial e hipócrita, ah se tivéssemos uma fatia daquele bolo! É difícil perceber o vínculo do ato educacional com o ato político. Fomos educados para não nos interessarmos muito em política. Lembro saudoso de matérias como OSPB e Moral e Cívica. Eram matérias forjadas para uma educação-de-cabresto. Mas para uma consciência opinante era um prato cheio. Debates, idéias, ideais nasciam com mais força. O descontentamento gerava revolta que gerava movimento. Hoje não, hoje gera apatia e depressão. O movimento é esquecido. As pessoas se retraem num individualismo cerceante de suas próprias liberdades. Não há o pensar nem o agir solidário. Educamos pela alienação, dando coisas que não o incentivo ao ato pensar por si mesmo. Ensinamos dependências. Principalmente porque pensamos que educamos mas não sabemos o que é Educação. O corpo dá autonomia. Ele é a matriz. E precisa se descobrir único. Respeitar-se por isso, e reconhecer isso em outros corpos com mesmo respeito. Aprendemos a ler, a raciocinar, a escrever com o corpo e seus órgãos dos sentidos interagindo com o mundo. É notável e de grande significado o elo entre inteligência e movimento. É notável a equação cujo resultado é autonomia. O corpo é o livro do auto-estudo. É a identidade transformada a partir de si mesma. Autoconscientes é que poderemos vislumbrar essa estranha a autonomia. Tão desconhecida pelas máscaras da limitação sócio-econômica e pela ignorância política. A autonomia precisa de um corpo. Encarno-lhe como Educação. Como anda a Educação anda a autonomia.

sexta-feira, 15 de fevereiro de 2008

Estigma da doença mental

Ir para uma consulta com psicólogo, terapeuta, psiquiatra geralmente estigmatiza a pessoa no seio social. Ela fica " marcada " como desequilibrada, anormal, doente da cabeça, louca, deprimida, esquizofrênica, neurótica, lelé da cuca. Sempre se olha por baixo, uma pessoa com antecendentes psiquiátricos, como se faz nos antecendentes criminais. A ficha suja implica desde dificuldade de uma readaptação à diculdade num novo relacionamento. A pessoa doente da cabeça é doente até o fim da vida, o negócio é crônico, para alegria dos psicólogos, teraupeutas e afins.
Nada contra essas classes profissionais que ganham digna ou indignamente seu tutú fazendo a cabeça do povo que se vê sem cabeça. Tenho uma teoria que chamo de teoria da impotência. Nossa profissão revela nossa impotência. É expressão dela. Nossa vocação revela nossa potência. Não é por termos sucesso na profissão que temos vocação para ela. Basta observar a conduta além do sucesso. Há curadores da cabeça que são mais doentes que os doentes que tratam. Começaram suas carreiras justamente por reconhecer suas impotências. Há então muito estudo, muita conduta clínica que não passa de encenação, ninguém cura ou alivia ninguém. Vejamos a conduta de um psiquiatra: ele recebe e ouve o paciente, recorre aos seus estudos e orientadores para uma conduta clínica mais acertada, depois ou antes ou durante soca uma medicação no paciente. O paciente passa a tomar suas pílulas por anos e anos. Os laboratórios farmacêuticos recheiam esses profissionais de brindes. Afinal a conduta deles aumentou o número nas vendas de medicação. Tendo em vista a contemporaneidade este tratamento é multidisciplinar, beneficiando outros profissionais da área e supostamente o cliente. O paciente sofre com efeitos colaterais o qual combate com outras medicações que causarão outros efeitos e isso não tem fim até que ele se veja mais doente do que estava e o tratamento fica mais intenso ou não. O curador que tenta curar o outro tenta curar a si mesmo.
Onde se origina tudo isso? Os avanços da ciência conseguem minar as dores do ser humano? Há duas realidades: corpo e mente. Assim que nossa cultura se concebeu, em torno desses conceitos distintos e conflitantes entre si. Muitas práticas científicas se fundamentam ou só no corpo ou só na mente. A informação que temos com herança gregra, um presente de grego é que temos a mente e o corpo. Nossa cultura então foi construída assim, com coisas para o corpo e coisas para a mente. Profissões para o corpo e profissões para a mente, doenças para o corpo e doenças para a mente. Não há unidade e e essa ilusória diversidade de eus que teóricos doutores ao longo da história inventaram ou nomearam encheram nosso modo de viver.
Poucos apreciam o bem-estar de uma forma desprovida da dictomida: da mente, do corpo. Saúde mental e corporal, emocional (sensação-sentidos) e espiritual ( religiosa-transcendente), continuamos a dividir para conquistar. Conquistar o quê com a fragmentação da realidade? Esse é o viés da ciência: fragmentar para conhecer. Mas não há ciência quando não se sabe como utilizar o conhecimento.
Hoje e nos tempos que se seguirão parece que as áreas que lidam com os tormentos da alma, da psiquê, da mente são indispensáveis para uma sobrevida saudável num mundo caótico como sempre foi esse nosso mundo. As pessoas em nome da idéia de conforto e de eu imposta pela consciência dominante se enfraquecem e se rendem. Buscam no tratamento de uma doença mental a paz, a segurança , a força , o equilíbiro, o amor. Surgem novas especialidades focadas nas demandas : o que você quer eu posso te dar de um jeito ou de outro. É o serviço. A profissão.
Equilíbrio é uma ilusão. Tudo está em constante movimento, em desequilibração. Tentar equilíbrio é ir contra a natureza e por isso, adoecer. A constatação é o primeira dose do verdadeiro remédio, a aceitação a dose mais forte e a cura vem com a capacidade de transcender. O sofrimento é existencial. Basta estar aqui para sofrer, e tomar pílulas e ir à consultas com doutores da mente não aliviará em nada, será apenas um desvio de sua dor para os efeitos colaterais de uma nova abordagem de sua realidade: você é dependente. Assim como eu e todos nos cercamos como que institivamente por alguma proteção. A manada, o rebanho, estamos aí. Seguimos os padrões, as idéias, as tendências. Não criamos nem fomos criados. Somos cópias que se reproduzem. A função primordial dessas classes de terapias, com seus doutores e teóricos sejam psiquiatras, neurocientistas, psicólogos e terapeutas de toda a sorte é adequação. Por uma particularidade no ser ele se torna uma anomalia, alguém que precisa ser tratado para poder viver em sociedade. Nisso o tratamento das doenças mentais não visam a saúde do ser, mas sua reintegração ao convívio social, ainda que dopado e confuso. É mais que uma questão de saúde a não aceitação das diferenças. Talvez tenha havido nobres ideais de cura, de restabelecimento das plenas potencialidades humanas, mas olhando o quadro atual, as doenças da mente são carnes num açougue virtual. Não se quer a prevenção, quer-se o tratamento. O ser humano está carente de atenção. É uma carência que compromete sua saúde. Pois a doença é um refletor, uma luz incidente sobre as angústias do ser, sobre o próprio ser que só se vê existente se notato pelo o outro. A manada cumpre muitas funções à sobrevivência da espécie.
Existem sim as descompensações fisiológicas que geram estados de alteração de comportamento e de percepção. Tudo pode ser tratado. Mas a modernidade fez com que qualquer coisa se fixe em nós e gere doenças. Pior, qualquer alteração que gere uma crise nos faz correr para os consultórios. O ser humano perde a capacidade de lidar consigo mesmo e com o outro. Ele cria necessidades e não vê como sua a capacidade de ser feliz, de ser quem é. Ele não sabe quem é, não investe em se descobrir, e por isso compartilha com o mundo, quem ele não é. A raiz de toda doença é isso: não sermos quem somos. Sermos o corpo, sermos a mente, sermos o que os outros querem, para tristeza do próprio coração.
Mas vale a reflexão: pílula, droga para quê? Psiquiatra, psicólogo... quem precisa deles de fato? Se o que eu sou é como estou o que posso mudar? O que é a minha doença? O que é a minha saúde?
O estigma se refaz como preconceito. A própria pessoa luta, é resistente em se abrir ao outro, seja ele o terapeuta ou o namorado ou o amigo. Colocamos em xeque a aceitação que teremos. Nisso as relações superficiais não nos castigam. Não há tempo para o outro nos conhecer. Nisso qualquer terapia se invalida. Não há disposição em me mostrar se o terapeuta não se mostrar primeiro. Então se fica encenando: um finge que se trata, outro finge que trata. A doença não é apenas mental é monumental. A doença nos garante de alguma forma, mas está longe de ser vertida nalgum aprendizado para o doente. Vira e mexe ele recai, ou o mal volta com outra máscara.
Cada doença tem sua causa, tem seu sintoma, sua cura e é claro sua finalidade. Qual é a finalidade de sua doença, pergunte-se. Vá sem medo para as causas. A cura sempre está na causa e na finalidade, nunca no sintoma ou no tratamento ou no terapeuta. A cura está ali porquê ali está você mesmo.
Por fim hoje penso que não há doenças mentais ou psiquiátricas. Há o não ser, a anulação da busca, a aniquilação do tornar-se. Quando nos reconhecermos livres até para sofrermos, muitos males contepomporâneos desaparecerão. Quando percerbermos que podemos trocar a medicação por meditação, que nosso trabalho pode ser prazerosa brincadeira e nossas relações pautadas na sinceridade pela verdade de quem somos...aí a doença não será nem em lembrança do corpo ou da mente. Ela será combatida no começo e vencida assim. Nossas condutas serão mais preventivas do que corretivas. Saberemos que o que chamamos por muito tempo de mente sequer existiu. Que somos por inteiro uma humanidade histórica e social condensada em cada célula. Que o nosso corpo somos nós, que nossa mente somos nós e que nós somos. Não cuide de seu corpo, não cuide de sua mente... cuide-se por inteiro.